quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Conversa com Tim.

 

O cenário é uma tarde de sábado ensolarada, típico dia de verão no Brasil, cidade de Valença, bairro Monte D’ouro, portão da minha casa:

Tim: – Luiz! Abra essa portão logo, to torrando no calor. LUIZ!

Mãe do Luiz:  – Peraí Tim, ele tá dormindo, vou tentar acordá-lo.

                    -- Luiz, aquele seu amigo maluco tá gritando lá no portão, vá lá atender ele, e não traga ele aqui pra cima, tenho certeza que que ele não viu água durante uns três dias, ainda por cima tá com casaco, e a roupa toda preta, vai impregnar a casa inteira com esse fedor.

Luiz: – Tá, já vou descer, invente uma desculpa aí pra enrolar ele.

Mãe: – Ele já vai descer Tim, pediu pra você não subir, porque ele é claustrofóbico e o quarto dele é pequeno, duas pessoas respirando naquele cubículo é a ideia dele de tentativa de assassinato, então espere ele aí mesmo, você pode até sentar ali do outro lado da rua.

7 minutos depois.

Luiz: – O que foi Tim? O que te traz ao verão brasileiro?

Tim: – Estou com um problema meu amigo. Na verdade vários problemas. A primeira coisa é a Helena cara, ela está me traindo, tenho certeza, ela passou o mês inteiro tomando regularmente um banho por dia, até roupas brancas têm usado, isso é inaceitável, se ela fizer isso com nossos filhos…e até esse sol…e você me atende aqui embaixo…tudo tá conspirando contra mim…essa claridade me incomoda…

Luiz: – Tim, por favor cara, tu não veio até Valença pra falar comigo sobre isso, veio? Tu paga caro pra um analista só pra ele ouvir essas coisas. Passe direto ao assunto…

Tim: – Tá, tá bem, cara, eu tô com um bloqueio criativo. Pior que já vendi dois filmes pra Disney, o meu compadre e minha mulher já aceitaram os papéis principais, eu já torrei o dinheiro todo do adiantamento que recebi – e não foi pouco – mas não consigo pensar em nada pra gravar.

Luiz: – Como assim? Tá com bloqueio criativo agora?!

Tim: – É, nunca tinha acontecido isso comigo.

Luiz: – Não? Então o que justificou você filmar Alice, Sweeney Todd e a Fantástica Fábrica de Chocolate?

Tim: – Como assim? Não são bons filmes? Eu fui premiado por eles, sou um diretor fantástico, o mínimo que mereço é reconhecimento e respeito.

Luiz: – Seja sincero Tim…você acha realmente que fez esses filmes?

Tim: – Claro, todos eles filmes inovadores, criativos, repito o que disse: FUI DEVIDAMENTE PREMIADO POR ISSO, você não vai se juntar a eles e reconhecer meu talento?

Luiz: – Assumo que você fez coisas boas, Vincent é ótimo, linda homenagem, aquele do cara com as mãos de tesoura também é um bom filme, consegui até assistir o do cavaleiro sem cabeça até o fim, mas os outros…sério?

Tim: – Por que? Não são filmes inovadores? Os considero melhores do que os que você citou…

Luiz: – Tim, você já provou que sabe escurecer a tela e entortar árvores, já é hora de seguir em frente, não? Você não gosta de filmes de terror? Por que não faz filmes de terror então? Fica aí enrolando com essa coisa de filmes infantis e galhos distorcidos, estilo sombrio, só pra chocar, ainda por cima sempre chama seu compadre pros seus filmes, só porque ele faz sucesso com as adolescentes. Mude um pouco, faça filmes com atores que não são da sua família, pare de chupar histórias alheias, você sabe escrever, ao invés de procurar uma história já feita pra entortar os galhos das árvores da trama escreva suas próprias, você sabe fazer isso. E coloque um pouco de claridade e cores nos filmes, não custa nada. Eu tenho aqui o box do Almodóvar, tome emprestado, veja os filmes e tente aprender a usar as cores. Não tenha vergonha de mudar Tim.

Após o diálogo, Tim – muito revoltado e ofendido – retira os óculos escuros e atira contra mim,  e, sem dizer uma palavra, se vira, ainda nervoso e suando a cântaros; o barulho de um pássaro lhe chama a atenção, nesse momento Tim levanta o olhar em busca daquele animal, e contempla um lindo céu azul com uma bola reluzente estampada. Três anos depois Tim é tachado de louco por todos aqueles que o contemplavam anteriormente, e de gênio por todos que lhe duvidavam.

P.S. Eu gosto demais do Tim, por isso o recebi, é um dos meus diretores preferidos, melhor ainda são os roteiros que ele próprio escreveu, gostei de tudo que vi dele, mas eu tenho certeza que ele tem um potencial pra fazer bem mais do que faz.

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